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Marisa Bueloni
Pedagoga e Orientadora Educacional
marisabueloni@ig.com.br
Piracicaba - SP
 

Zinfia

segunda-feira, 26/04/10 - 16h30

Anda baixando um santo na hora de escrever. Di iscrevê. Bate a maior apreensão. Dá um tempo aí, preto véio das letras. A sobriedade me chama e tem gente estranhando. Zinfia num tá gostando? Ih, ih, ih. Estou é com medo, isso sim. Sossega, caboclinho da Cartilha Sodré. Sossego não, Zinfia tem muito qui aprendê.

Zinfia anda assustada. Uma das irmãs até já comentou num e-mail: “seus textos ultimamente estão em santa ousadia, heim?”. Prestou atenção no adjetivo “santa”? Ainda bem. Qualificativo de redenção. Enfim, dizem que este é um caminho sem volta. Depois que se provou deste cachimbo, tá perdido. Feito quem dirige um fusca e depois pega um Audi. Do qual vai gostar mais?

Há pouco tempo, Zinfia recebeu um índio velho de frente e apitou. Posso copiar, Zé Simão? Rárárá. Pegou peixe com zarabatana, aprendeu os mistérios da mata, bateu tambor e nadou de braçadas. Tem poesia maior? (Tem é um almoço domingueiro de comer rezando. Oh, que maravilha as árvores centenárias debruçadas sobre o rio, o peixe assado, acompanhado de pirão e arroz soltinho, molho tártaro, cervejinha gelada. À sombra de um restaurante ribeirinho chamado “O Remador”. Salve, Piracicaba!).

A despeito da ousadia, Zinfia rema que rema. Já está quase descobrindo que apito toca. E no pio da corruíra, pia a ave nostálgica de sua alma nômade. A moleca sabe que nunca mais será a mesma. Além da dor – balada triste, velha amiga e companheira –, foi tocada pelos anjos e pelo divino. Também o profano toca seu espírito. Complicado lidar com esse cachimbo inesperado, aromático, fumaceando na taperinha de chão de terra batida, o telhado caidinho, cerquinha tosca onde vicejam trevos cor-de-rosa. Tenho todo respeito.

Suncê tá cum medo, nega? Num carece... Zinfia pricisa é de tomá corage. Corage, que suncê chega lá. Ih, ih, ih.

Não pretendendo chegar a nenhum outro lugar que não seja o céu eterno de Deus Pai, Zinfia morde o lábio inferior, pensativa. Preto véio letrado irrompe quando ela menos espera. Que susto, gente! Socorro, meu São Jorge! (Meu São Paulo, tricolor amado!). É um bendito disfarçado, abanando as brasas do fogão à lenha, feijão cheiroso cozinhando, garrafa de marafo, gamelas de madeira e pilão, atabaques aposentados, banquinho com assento de palha, onde painho que leu Joyce – e foi “Ulisses”!- pita seu cachimbo em paz.

Cachimbo também é conhecido como pito. Saci-pererê fuma um destes. Eu não fumo. Para não dizer que nunca vi um cigarro, acuso que fumei de 92 a 99. Foram sete anos “pitando”, como dizia uma amiga querida da faculdade. Ela fumava “Charm”. Olha só os apelos sutis da propaganda. O diabo lambe os beiços. Meu lindo (infelizmente) fumava “Free”. Que armadilha um nome de cigarro sugerindo liberdade, quando o que ele faz é escravizar no vício. “Seja livre, morra com Free”.

Há 10 anos, me livrei desta porcaria. Como parei? Rezando a São Miguel Arcanjo. Parar de fumar foi uma vitória - minha e do pneumologista. Embora fossem apenas 3 cigarrinhos por dia. Zinfia pitô foi nada. Foooi! Rezei ao Arcanjo Miguel para derrubar o cigarro da minha boca com sua espada flamejante. Num dia fumava, no outro não. Nunca mais. De 99 para cá, não sei o que é cigarro.

Mas quando ligo o computador, sei o que quero. Clico em cima de um W na barra lá embaixo e a página branca do Word se abre luxuriante. Só desejo encantar o coração do leitor. E ser fiel àquilo em que acredito. Minha fé em Deus é inabalável, não obstante um assédio sedutor me rodeie o tempo todo. Olha aqui, sua tonta... Então, abro a Bíblia e leio Efésios. Visto a armadura. Finco pé na minha seara humilde. Aquilo que já defendi mil vezes: um prato de comida e um canto para morar. Só. A Tua graça me basta, Senhor.

Zinfia espia de longe Pai Jerônimo e seu pito. Ih, ih, ih. Suncê num qué se achegá? Quero não senhor. Nem mesmo quando a coisa estiver muito braba, ou faltar inspireixon-xon. Zinfia num qué dá uma fungada no pito? Quero não senhor. Necessito da minha lucidez bem arrumadinha. Ainda que minha literatura se limite à espetacular frase “a pata nada”. Vai um gole de marafo das boa, mofia? Quero não senhor. Preciso da cachola sempre limpa e arejada. É uma lei pessoal. Se não me acerto com ela, não me acerto com Deus.

Puis intão Zinfia é das minha. Ih, ih, ih. Pricisando, mofia, é só se achegá.

Tá bom, obrigada. Inté.



 

 

 
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