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Marisa Bueloni
Pedagoga e Orientadora Educacional
marisabueloni@ig.com.br
Piracicaba - SP
 

Teorema

terça-feira, 16/03/10 - 14h38

Diz o Aurélio que o teorema é uma “proposição que, para ser admitida ou se tornar evidente, precisa ser demonstrada”. O oposto do teorema é o axioma, “premissa imediatamente evidente por si mesma: a parte é menor que o todo”. Pode ser também uma máxima, um ditado, um provérbio que encerra uma verdade indiscutível.

Nos tempos do colégio, era fascinante entender o enunciado de um teorema e demonstrá-lo, usando as três letrinhas no final: C, Q e D, ou seja, Como Queríamos Demonstrar. Nunca fui boa aluna de matemática, meu forte sempre foi o português, inglês, filosofia, psicologia. Matemática, física e química – estes eram os meus terrores. Ó, Deus, como sofri! Mas superava, estudando muito e passando dolorosas madrugadas, debruçada nos cadernos e livros.

Em dia de prova, antes de dormir, deixava um bilhete para minha mãe sobre a mesa da cozinha. Ela levantava bem cedinho para preparar o café. Então, me acordava e eu dava uma última “passada” na matéria. Até hoje, posso ver minha mãe coando o café e fervendo o leite. Vejo um lado da mesa cheio de livros, o pão, a manteiga, o bolo de fubá, e um cheiro de esperança recendendo pela casa.

Abençoado tempo da escola, do colégio, da faculdade. Nós éramos felizes e não sabíamos. A gente parecia odiar aquilo tudo, quando, no fundo, amávamos as matérias, os professores, o ambiente da classe, os colegas, os amigos. Alguns deles foram joias preciosas em nosso caminho juvenil, sob o céu cor de anil.

Então, me lembro de um professor de matemática, cuja letra era um desenho rendado na lousa, um arabesco de formas delicadíssimas. Os números eram feitos de linhas finas e graciosas, o giz parecia um pedaço de nuvem branca entre os seus dedos. Mas, além da teoria matemática, ele tentava nos passar uma lição para a vida. Era quando a aula se tornava poderosa.

O que foi aquela 4ª série do antigo ginasial? Éramos uma turma terrível, com a juventude e os hormônios saindo pelos poros. Insubordinados, cantávamos as canções de Roberto Carlos na aula de música e o professor ficava enlouquecido. O maestro queria ensinar exercícios musicais de solfejo, e um colega, que viera de São Paulo e adorava o Rei, pedia: “Posso trazer a letra do `Calhambeque´ do Roberto pro senhor ensinar?”. A classe ria sem parar, e o professor, de cabelos brancos e um bigodinho ralo, perguntava quem era Roberto Carlos e que música era aquela. Bons tempos.

Mas, eu contava do professor de matemática. Um dia, ensinando o Teorema de Pitágoras, ele foi tão longe que se podia ouvir um mosquito passando pela sala. A aula foi um sonho lindo.

Então, a classe ruidosa fora apresentada ao Teorema de Pitágoras, cujo enunciado a ser demonstrado é: o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. Nunca mais me esqueci. Nem poderia. O mestre dizia que nesta sentença escondia-se uma proporção matemática para a vida. Que, com o tempo, reconheceríamos neste teorema o sentido da nossa existência, compreendendo o seu significado. Naquele triângulo – e ele apontava para o desenho na lousa, com os olhos brilhando de emoção – existiria um segredo oculto, que levaríamos em nossa bagagem pela vida afora. E só o entenderíamos bem mais adiante.

Certamente, queria toda a nossa atenção para o que estava ensinando e, com palavras tão flamejantes, ninguém tirava os olhos do triângulo. Parecíamos estátuas, pessoas congeladas nos bancos da sala de aula, aprendendo o caminho secreto de um achado eterno. Ah, então aquele era o Teorema de Pitágoras e o professor está afirmando que ele contém um segredo para a vida!

Ó, meu Deus. Não era mais uma simples e chata aula de matemática. Não era um mero e pobre (ele se dizia pobre) professor, lecionando a ingrata matéria para uma classe de jovens e adolescentes, que ouviam Roberto Carlos e os Beatles com a alma em chamas. Havia algo de terrível e de maravilhoso desenhado na lousa, nós sabíamos, e só o viríamos a entender muitos anos depois. Acima de tudo, havia algo de profundamente humano naquele mestre dedicado que nos olhava com tanto amor. De onde vinha este amor? Das profundezas numéricas de sua alma?

Quando estudei aquele triângulo retângulo, eu tinha 15 anos. Estou com 59. Acho que cheguei à idade de entender o Teorema de Pitágoras. Ou estou muito perto de entendê-lo.

 
 
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