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Marisa Bueloni
Pedagoga e Orientadora Educacional
marisabueloni@ig.com.br
Piracicaba - SP
 

Retalhos...

terça-feira, 13/04/10 - 08h40

Este ano, arredondo os seis ponto zero. Dizem que não mostro a idade. Mas se mostrasse, que mal haveria? Temos a idade que temos, não importa se parece ou não. Enfim. Lá pelos 18, olhei para a frente e pensei: vou tirar de letra, vai ser canja. Não foi. Deus sabe os acidentes de percurso que enfrentei, as 11 intervenções cirúrgicas a que me submeti, sendo nove com anestesia geral. Se tiver mesmo de operar a tireóide este ano ano, será minha 12ª cirurgia e a 10ª anestesia geral. Valha-me, meu anjo da guarda!

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Não saltei de paraquedas, não fiz mergulho, tirolesa, alpinismo, jumping, rapel, nada. Vivo no chão. Minha vidinha é térrea como minha casa. Amo a beira-mar. E amo a solidão do boi no campo. Quando é que a vida começa a se completar? Quando é que saímos da nossa casca ancestral? Pois ainda evito os passeios de escuna, de barcos, de lancha. Os outros vão, eu aceno de longe. Fico sempre em terra. Só visitei uma vez um navio, num passeio da excursão. Eu tinha 15 anos. Era um cargueiro de sal, no porto do Rio de Janeiro. A tripulação era grega, arrisquei um tímido inglês. Ficou por isso.

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Nunca fiz canoagem, mas penso em fazer uma tatuagem. Um pequeno Sagrado Coração de Jesus, com jeito, bem no lado esquerdo do peito.

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No galho mais alto da mangueira, eu governava o mundo. Ninguém elaborava leis mais belas e mais justas dos que as minhas. Comendo manga verde com sal, eu tinha um reino lá embaixo e meus vassalos eram as pombas do viveiro do meu irmão, os besourinhos e as borboletas. Parece que, antigamente, havia mais borboletas do que agora. Era fácil e simples reinar do alto da mangueira. As verdades eram absolutas, Deus fizera o mundo perfeito. Se ameaçava chuva, dava tempo de descer correndo da árvore. Só que a vida lá no chão era em branco e preto.

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O mundo está de cabeça para baixo ou é impressão minha? A superficialidade tem lugar garantido nos melhores lugares. Vivemos a pior crise de valores de todos os tempos. A mediocridade rasa está em alta. Reputam-se criativas e espirituosas coisas absurdas. Julga-se inteligente o que não tem nexo. Um paradoxo. Mas é assim mesmo. Somem-se ao assombro geral a internet, orkut, twitter e blogs da vida. Minha filha mais nova me diz: “O mundo está muito digitalizado; precisa voltar a ser analógico”. Conjecturo que esta digitalidade é irreversível. Quero me valer dela, sem ser crítica demais, moralista demais. Sou agente e objeto da história contemporânea. “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia...” – canta a música linda, coberta de razão.

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Na fábula de La Fontaine, eu seria a formiga, disparado. Embora saiba cantar direitinho, acharia um desperdício passar o verão só cantando. Ora, tenho mais o que fazer. Mas seria a formiga, armazenando alimento na casinha. Deixa as cigarras cantarem. Enquanto trabalhamos, há música no ar. Esse zizizizi sonoro tem sua função na ordem do universo. Um brinde para nós, formigas ciosas. Então, até no jogo de buraco é bom saber o momento certo de pegar a mesa. Quem guarda tem. Aí, é só colocar todas as cartas, pegar o morto, fazer duas canastras limpas e bater. Como se dizia antigamente: fim de papo. Perdão, La Fontaine.

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Há dias em que vejo minha chácara reluzir. Ou melhor: tremeluzir. Uma vez escrevi num e-mail que "as estrelas tremeluzem no céu" e um amigo riu da frase. Não tem importância. Tremeluzir quer dizer "brilhar com luz trêmula". Então, há momentos em que a brisa do campo, num hálito de terra, bate de frente comigo. Só não me derruba. Mas a sensação é arrebatadora, sabe? Andando no gramado, sob o céu primaveril, vejo uma energia pairando no ar, uma força vibrando em ondulações, uma luz pulsando etérea. Não sei o que é. Penso nos elétrons, prótons e nêutrons. Quero pegar na molécula, no átomo, na célula viva e invisível que compõe o cenário em movimento. “O universo respira”, afirmou Giordano Bruno no ano de 1600. E não escapou da fogueira.

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Lembra do Paulo Francis? Se você for muito jovem, talvez não se recorde. Era uma figura. Não apareceu ninguém para ocupar o seu lugar na imprensa ou destilar igual veneno. Paulo Francis na televisão enchia a tela. O ano era 1994. Caio Blinder, Nelson Motta, Lucas Mendes e Paulo Francis, quatro jornalistas de primeiro time, discutiam e celebravam os 25 anos da chegada do homem à Lua. Lucas tentava explicar a Francis o avanço tecnológico que a conquista espacial proporcionou ao mundo. “O quê?” – Francis era todo ironia. “O velcro, o relógio digital, essa caneta que se escreve em qualquer ângulo”. Francis e sua acidez: “E é preciso gastar bilhões de dólares para inventar uma caneta?”. Então, Lucas Mendes não suportou: “Não é isso...”. Mas Francis, com sua retórica polêmica, finalizou: “A corrida espacial é uma bobagem. Não há vida em outro lugar a não ser na Terra. Quer saber de uma coisa? O Universo é uma bosta”. Esse era Paulo Francis.

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Não há nada de novo debaixo do sol. A não ser uma febre adquirida na contínua infecção da vida. A não ser um corpo menos ágil e um olhar mais frágil. A não ser um canto menor e um dó maior. A não ser um acaso que não vem ao caso. A não ser uma divisória no quarto da memória. A não ser uma particularidade a esta altura da idade. Fim de poema?

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Queria ser inteligente, daquela inteligência matemática, de saber quanto é 22 X 29 sem pegar na calculadora. Acho lindo quem sabe fazer conta de cabeça. Eu perguntava ao meu marido: quanto é 219.758 menos 16.389? E ele respondia sem piscar. Queria ter esta inteligência das pessoas que dizem: eu fiz toda a parte elétrica da minha casa. Ou: eu instalei e montei tudo isso, só com a ajuda do manual. E os tais dos hackers? Que raça é essa? Os invasores, esse pessoal que consegue entrar nos computadores da Casa Branca? Como é saber elaborar e modificar software e hardware de computadores? Eu fico aqui, no uordezinho da vida, e acho tudo o máximo. Caramba, quanta coisa que eu não sei.

 

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Ainda existem doçuras espalhadas por aí. A questão é encontrá-las.

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Estou encantada. Folha de graviola cura câncer. A papaya é altamente desintoxicante. A banana tem propriedades milagrosas. E a linhaça? Até eu andei consumindo. E o magnésio, tomado em jejum de manhã, amargo que nem fel? É o elixir da longa vida. Levanta defunto. E um xarope caseiro de mel com canela? Cura de asma a insônia. O chá de cascas de nozes pecam é outra maravilha. A lista dos benefícios não tem fim. E o abacaxi? Ele quebra a proteína da carne, melhora a digestão. Depois daquele churrasco homérico, sirva abacaxi de sobremesa. E um dente de alho amassadinho no prato? E as propriedades da azeitona? Você sabe do que uma azeitona é capaz de fazer no seu organismo? Não? Nem eu. A cura pela comida é legal. Mas desenvolvi uma teoria alimentar que é batata: como quando tenho fome. Pronto.

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Era uma vez um menino que brincava de guerra. E do seu tanque disparou uma flor. Nada de tiros. Somente flores. Ainda que insignificantes, as buganvílias são torpedos explosivos, coloridos, que se desfazem ao sabor do vento e enfeitam calçadas soluçantes. Quem for capaz de ouvir o gemido de uma calçada que soluça, toda vez que recebe a flor “insignificante” em seu colo, compreendeu o sentido da vida.

 

 
 
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