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Marisa Bueloni
Pedagoga e Orientadora Educacional
marisabueloni@ig.com.br
Piracicaba - SP
 

Perder o juízo

segunda-feira, 26/07/10 - 15h32

Quero perder o juízo. Só um pouco. Não me leve a mal, tá? Você sabe... Deve ser bom demais, digamos, dar uma “descontraída”. Nem que seja por algumas horinhas. Por um minutinho na vida, vai. Por favor! Deixa?

Ando cansada de ser sempre tão certinha em tudo. Sobra juízo em mim. O que é que a gente ganha com isso? Olha como prosperam os corruptos e os ladrões neste país. Não queremos ser como eles, jamais. Acredito em muita gente de bem que anda sempre dentro da lei, dos conformes, das regras em sociedade, do que é legalmente permitido. Enfim, devo ser uma chata de galocha, de tão correta que sou. No meu tempo se dizia que alguém assim era “caxias”.

Se está escrito numa porta “Não entre sem autorização”, não entro nem que a vaca tussa.

Ninguém obedece tão cegamente uma ordem quanto eu. Deem-me algo para fazer ou cumprir e será feito, será cumprido. É da minha personalidade. Nem que eu tenha de passar uma noite em claro, comendo grama, eu faço. Embora tenha espírito de liderança, sirvo também para ser comandada. Acato ordens, presto contas, dou satisfação, apresento resultados, escrevo relatórios, atendo a imprensa.

Se eu fosse Eva no Paraíso, putz, a história da humanidade seria outra. NUNCA que eu teria comido a maçã, oras! Eu não seria idiota de desobedecer a uma ordem dada pelo Criador. Teria seguido à risca. “Não comerás do fruto desta árvore”. Pronto. Para mim, não precisava falar duas vezes. Inda mais vindo da parte de Quem!

A serpente podia me infernizar dia e noite. “Vai lá, sua tonta, serão como deuses, é a árvore do conhecimento”. Eu ficaria firme, colocaria floquinhos de paina nos meus ouvidos, e deixava o diabo da serpente falando sozinha.

Então, no final do dia, depois de muito nadar, pescar e colher frutos, Adão chegaria para mim, perguntando: “E aí, meu bem, a serpente te encheu muito a paciência hoje?” “Nada. Mandei ela ir caçar sapo”. “E ela foi?” “Não sei, pergunte para ela”.

Eva tinha de ser assim. Curta e grossa. Mulher de fibra e inteligência. Se Dunga foi burro, Eva foi sem juízo. Devia ter tomado para ela a missão de vigiar. Vai que Adão viola a ordem e pega um fruto? Não. A boba foi ela, que fraquejou e deu ouvidos à serpente. E aí... aí foram ambos expulsos do Paraíso, perderam a confiança de Deus, e tiveram de comer o pão com o suor do rosto. O resto, todo mundo já sabe.

Por isso, se eu fosse Eva, a história seria diferente. Eu não teria comido a maçã, a serpente perdia essa batalha, Adão e eu viveríamos felizes para sempre – de verdade – e não haveria essa miséria em que se transformou o mundo de hoje. Toda esta desgraça começou com a desobediência a uma ordem tão simples.

Então, já ilustrei tudo. Tenho esta firmeza, essa força de vontade para resistir. Minha carne é forte, meu espírito é bravio, minha determinação é férrea. Chega! Resolvi dar um basta e decidi que perder um pouco dessa têmpera pode ser saudável e moral.

Uma vez, assisti, embevecida, a uma briga entre uma mulher e um guarda de trânsito. Ela devia ter estacionado em local proibido. O guarda dizia: “Pode sair daí”. Dentro do carro, mãos no volante, ela respondia: “Não saio, não senhor”.

Aquilo durou alguns minutos, “pode ir saindo”, “não saio” e eu assistia àquilo num divertimento absoluto. Até que o guarda se aproximou bem do carro dela, dedo em riste. De onde eu estava, dava para ouvir alguma coisa. Não ouso reproduzir aqui. A cena seguinte é o seu guarda se afastando de fininho, tipo rabo entre as pernas, e a senhora dentrinho do carrinho dela, bonitinha, à espera da filha que ia sair do colégio. Achei maravilhoso!

Isso pode não ter nada a ver com perder o juízo. Mas é quase. Eu não saberia enfrentar o seu guarda daquele jeito. No primeiro aviso, teria picado a mula. Sou muito bobinha e obediente. Dura lex, sed lex. No cabelo só Gumex. Quem se lembra?

Como será deixar de ter juízo? Como será abaixar a guarda só um pouquinho e permitir que as coisas aconteçam ao sabor do vento, da chuva, das correntes marinhas, do El Niño, do acaso, da vida? Como será não estar vigilante e se policiando o tempo todo? Como será não atender ao telefone? Tem gente que deixa tocar. EU NÃO CONSIGO!!! Alô?...

Ó, Deus, vigiar sem cessar, não queimar o arroz, fazer a revisão no carro, anotar os aniversariantes do mês, comprar o peixe, consertar o varal, passar na costureira, fazer a mamografia, marcar a punção na tireóide, cumprir todos os deveres. O que acontece se eu não fizer nada disso? E se eu quiser ficar deitada na rede o resto da vida, ouvindo Ray Conniff até cansar?

Acontece que eu vou ter uma baita dor na consciência. Um remorso infinito. Melhor ir levantando da rede, pegar a chave do carro, tirar o lixo, abrir o portão e tomar tento. A vida urge. Não adianta. Não consigo perder o juízo, por mais que eu queira. Infelizmente, meus caros, não fui eu a eleita para ser Eva. Garanto que eu teria segurado aquela onda. Caramba! Como é que nós fomos perder aquele Paraíso todo?

Como diria o Neto, comentando os jogos da Copa pela Band:“É brincadeira?!?”.

 
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