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Marisa Bueloni
Pedagoga e Orientadora Educacional
marisabueloni@ig.com.br
Piracicaba - SP
 

No fundo do coração

segunda-feira, 21/06/10 - 17h43

É no coração, lá no fundo, que ficam as coisas mais fundas. E como é delicado e trabalhoso lidar com estas profundidades. São funduras bastante enigmáticas para o próprio dono do coração. Nem ele mesmo consegue entender o que lá se passa, sendo obrigado a admitir que, de fato, o coração tem razões que a própria razão desconhece.

Vejo a lua cheia e contemplo as estrelas - um teto admirável, pleno de belezas e luzes. Tento medir esta distância e sei que estão bem longe de nós, mas nada está tão fundo como a casa do coração. Nas alturas, habita um mistério eterno; no coração, habitam os segredos e talvez os sentimentos que não queremos, às vezes, admitir.

Estamos aqui, pés no chão, pisando o abençoado solo diário, cada um cumprindo a parte que lhe cabe na vida. Cada um sabe aonde vai, desde o momento em que acorda. Sabe? Uns vêm, outros vão. Há chegadas e partidas. Mas todos estão naquela rota necessária, a bordo de si mesmos, por vezes agindo como autômatos, sem chance de parar e escutar o coração.

O Livro do Eclesiastes, nas Sagradas Escrituras, trata deste nosso trabalho diário: “E vi que tudo era vaidade e vento que passa, e que nada havia de proveitoso debaixo do sol”. Mas diz também que: “Vale mais uma só mão cheia de tranquilidade que as duas mãos cheias de trabalho e vãos afazeres”.

São muitos os trabalhos desta vida, contudo nenhum deles é tão profundo quanto a charrua que moureja dia e noite no fundo do coração. Lá estão enterrados os segredos de cada um, aquilo que se pensa e não se diz; o que se deseja ardentemente e aquilo a que se renuncia, sabe-se Deus por quais razões. O que se sepulta para sempre, em nome da paz.

Há uma lista infindável, quando se trata dos segredos do coração, dos seus estranhos motivos. São mistérios intraduzíveis, e não há raio de sol que alcance o baú bem encerrado, o tesouro que cada um carrega dentro de si. O astro-rei está muito distante e o coração está muito fundo. Estão em distâncias diametralmente opostas, mantendo suas características inequivocamente particulares. Cabe ao sol a jactância do brilho, a luminosidade do dia, reinando absoluto; cabe ao coração recolher-se, manter-se na penumbra do silêncio e guardar sigilos.

E é lá, nas águas abissais da alma, que mergulha nosso pensamento, nossa imaginação. Mas o sonho precisa vir à tona. Creio que o homem é mesmo uma criatura especial, dotado de grande inteligência, pois não perde nunca a capacidade de sonhar. É o sonho que nos mantém vivos e apaixonados, interessados na vida, preocupados com o que se passa a nossa volta, curiosos, impacientes e eternamente pesquisadores.

É o sonho, são as fundas questões do coração, irreveláveis à luz do dia, que nos fazem fortes, ousados e precavidos. Tenho quase certeza disso. De que sem a dose diária do sonho e da fantasia, seria impossível sobreviver. É como se o homem pudesse ficar sem comer, mas não sem sonhar. É por esta capacidade de alimentar o sonho dentro do coração que o homem se apóia nos seus dois pés e caminha. Por causa dela, ele pensa, estuda, e decifra a vida. A antropologia ainda vai se render a esta evidência.

Aqui no campo, contemplo a noite vasta e nada mais teria a escrever, não fosse pela magia do sonho. O céu de agora se apresenta sereno, no recorte das estrelas invernais. Ergo meus olhos para a lua e me pergunto quando ela dará o primeiro sinal. Aquela palavra de que nos fala o Senhor, os sinais na lua e nas estrelas, quando as potências do céu serão abaladas.

Também o coração guarda uma profecia. Também o coração possui o dom de prever o que nos ronda, pela ação dos pressentimentos e premonições. O coração acalenta um desejo de testemunhar estes sinais, por mais dolorosos e sangrentos eles sejam. Porque se poderão vencer os obstáculos, domar serpentes, anular o efeito dos venenos, andar sobre as águas e acalmar os ventos. Vitória sobre vitória, triunfo de gigantes na fé. Pode ser que neste dia sejam revelados os pensamentos de muitos corações, tal como profetizou o velho Simeão no templo.

E os homens de boa vontade terão contemplado a salvação.

 

 
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