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Marisa Bueloni
Pedagoga e Orientadora Educacional
marisabueloni@ig.com.br
Piracicaba - SP
 

Luz para o mundo

segunda-feira, 03/05/09 - 17h28

Quando é que um texto se torna luz para o mundo? Quando ele provoca, de alguma forma, uma revolução formidável na vida das pessoas? Quando ele causa uma iluminação interior? Quando ajuda alguém a pensar em coisas como justiça, cidadania, direitos? Quando ele faz um ateu acreditar em Deus? Quando mata a fome de beleza? Quando, afinal, um texto se torna luz para o mundo?

Fui assistir a uma missa na capela do Carmelo, aqui em Piracicaba. Vi uma freira carmelita, majestosamente paramentada com o hábito marrom e branco. Igual a Santa Tereza d´Avila. Uma verdadeira aparição. Não resisti, aproximei-me dela e disse: "Vestida assim, a senhora é luz para o mundo". Ela me respondeu: "Reze por mim".

Uma banca de frutas é luz para o mundo? Sacos de arroz e feijão, ovos, verduras e carne, é luz para o mundo? Ó, a fome dos lugares miseráveis, em guerras civis, as mães e as crianças esquálidas da Somália. As meninas entre 9 e 13 anos que têm o clitóris extirpado a facas e agulhas. Os doentes em “hospitais” psiquiátricos, acorrentados aos pés das suas “camas”. Alguém consegue ir até a Somália, com a coragem de ser luz para o mundo?

Há muita fome e miséria em nosso próprio país, nós sabemos. Não é preciso que ninguém vá à África, para ir ao encontro da barbárie, da crueldade e da falta de amor. Temo pelos pequeninos do Reino. Rezo pelos humilhados e sem dignidade. Aqui, no recanto da minha chácara, o que mais faço é rezar. Rezo pelos suicidas. Alguém me disse: “Não se reza pelos suicidas”. E a misericórdia divina? Somente Deus sonda os corações. A misericórdia divina é luz para o mundo.

Um poema pode ser luz para o mundo. A poesia carrega o germe da emoção e palavras são como bênçãos. Se a poesia não trouxer o alívio esperado, ao menos soprará em nosso ouvido um fonema qualquer, se lida em voz alta. E teremos louvado a Deus pela graça da audição. Ou da visão. Nossos cinco sentidos – e todos os outros – são luz para o mundo.

Frei Betto conta que, certa vez, com seu carro parado num farol, aproximou-se dele um menino de rua, pedindo dinheiro. Frei Betto deu. Dali a pouco, outro menino chegou e o frei foi logo se desculpando por não ter mais nenhum trocadinho. O garoto disse: “Não, não precisa me dar nada. Só quero que o senhor passe a mão na minha cabeça também”. Ai, a fome de amor!... Ela ainda vai trazer luz para o mundo!

Os que cozinham a sopa para os pobres e a distribuem nas noites frias; os que ajudam a derrubar ditaduras; os que não têm medo de perder a própria vida, porque acreditam na alma; os que consomem seus corações e ideais na prática da coragem e da ousadia; os que se doam, anônimos e felizes – estes, certamente, são luzes para o mundo!

Os pacificadores e os laboriosos; os que respeitam o próximo e são delicados em seus gestos e atitudes; os que arregaçam as mangas e os que repetem mil vezes a mesmíssima tarefa diária, porque, perseverantes, acreditam no milagre do sonho - estes possuem no peito a chama que é luz para o mundo!

Como se faz para manter acesa a centelha que incendiará o mundo? Como se sopra sobre esta fagulha frágil, para que não se desvaneça debaixo de nossos pés indiferentes? O que é preciso para alimentar este fogo benfazejo e nutritivo, este luminoso apelo de lutas e esperanças? Quem, hoje, neste mar revolto e escuro, pode ser luz para o mundo?

Vi na tevê um homem de Niterói pelas ruas, carregando sua geladeira nas costas. Foi o que pôde salvar. Olhou para a câmera e disse:”Não tenho onde morar, vou dormir dentro da geladeira, eu e meus filhos”. Um teto, camas, cadeiras, pão e café sobre a mesa é luz para o mundo.

Há tanta mediocridade à solta. Tanta mentira. Tanta incúria. Tanto desperdício. Tanta lady gagá. Tanta nudez. Tanta falta de gosto e de bom senso. Tanta injustiça. Tanta desgraça. Onde está a graça que dissipa as trevas do erro e da ignorância? Onde está aquele amor ao saber e à honra que eram luz para o mundo?

Ah, meus queridos, lindos da minha bem querença! Quem somos nós, neste exército de cansados? Contudo, lutemos juntos, para acender esta lâmpada necessária. Lutemos juntos, para manter aceso o fogo que aquece os corpos, mais que mil cobertores. Lutemos juntos, para soprar sobre as brasas do zelo apostólico e do afeto, da concretude e da solidez. Lutemos juntos, para que um novo mundo surja das sombras terríveis. Lutemos lado a lado. Ainda que meros simulacros de cabecinhas de fósforos, lutemos - luz para o mundo!

 
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