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Marisa Bueloni
Pedagoga e Orientadora Educacional
marisabueloni@ig.com.br
Piracicaba - SP
 

Excelsa

quarta-feira, 24/03/10 - 13h32

Então, ela se deu conta:

a vida só lhe trouxera sofrimento,

desgosto, lamento,

cansaço e maltrato.

Para quem ansiava pela glória,

contava a si mesma

a prosaica história

do anonimato.

Quem precisa de glória, afinal?

Na pensão pobre – um respeitável teto –

tinha por companhia e carinho

um gato rejeitado e magrinho,

à guisa de afeto.

Lavar a transformação da face

na água fria da torneira a cada manhã,

encolher-se sob o velho cobertor na cama vasta.

Para quem amava viver,

alimentava a ilusão de que na vida

a própria ilusão da vida basta.

Um caderno grosso

- ah, velho amigo! –

lotado de poesias escritas pelos rodapés e margens,

era seu guardado mais antigo.

Para quem idealizou a sorte

da imortalidade,

restava a certeza de encontrarem seus versos

após sua morte,

íntimo legado à posteridade.

Avental puído, esperança gasta,

partiu desta vida ingrata,

não deixou ouro nem prata,

era um anjo etéreo.

Sem atrativos e sem sucesso,

sem nunca ter cometido o menor excesso,

penando na terra as anemias,

brandiu seu espírito no céu

à procura de melhores dias.

Deus surgiu no patamar da entrada celestial

e abraçou-a de um jeito especial,

dizendo: “Entra, aqui tua glória será eterna,

és bem-vinda,

terás um pódio para cada perna.

Escreveste em silêncio a anônima dor,

aquela que honra o Meu amor

e receberás o prêmio eterno.

Aqui todos te conhecem, amada,

publicou-se no céu o teu caderno”.

 
 
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