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Marisa Bueloni
Pedagoga e Orientadora Educacional
marisabueloni@ig.com.br
Piracicaba - SP
 

Escrever é sonhar

segunda-feira, 09/08/10 - 11h04

Perguntaram-me se não pretendo comentar, neste espaço, as incompetências do atual governo, a crise mundial, os rumores de guerras, o presidente Ahjmadinejad, a inundações no Nordeste e em outros países, e todo o resto que a maioria já conhece “de cor e salteado, de trás pra frente”, como diria meu amado pai.

Falando no meu pai, meu amor por ele levou-me a um gesto que o eternizou: meu pai é nome de rua aqui no Campestre. Poucas pessoas amaram tanto este bairro quanto o meu pai.

Lá está a placa, num dos postes da estrada, com o nome dele. Quando passo naquele local, meu coração bate mais forte, pois imagino que, lá do céu, ele se comove até as lágrimas, como costumava se comover por qualquer coisa aqui na terra, tirando o lenço do bolso, enxugando o canto dos olhos. Desejei prestar-lhe esta singela homenagem e fazer brilhar o nome do meu pai numa simples placa de estrada – ele que sempre foi tão simples.

Mas, voltando ao assunto do início, confesso não sentir muita vontade de abordar o momento político, a violência destes tempos, a corrupção, as injustiças e as sombrias perspectivas mundiais. Deixo estes temas para o valente time de articulistas deste intrépido site, sobretudo ao Marcio Xavier, que não nega fogo nunca.

Enfim, estou numa fase de sonho (até já encontrei o sonhado travesseiro...). Creio que escrever é sonhar e libertar o sonho, as lembranças. Nas minhas recordações, estou acima do mundo e de mim mesma. Ali, encarapitada no alto de um muro, comendo um maravilhoso pão sovado com manteiga, eu era a menina mais feliz da terra, observando os pombos se aninhar junto à mangueira do nosso quintal.

Anoitecia, e cada estrela que se acendia era um incêndio de felicidade para a minha alma. Havia música no céu, na terra, num mar distante que eu ainda não conhecia, mas que me chamava, me chamava, eu podia ouvi-lo dia e noite sem cessar. O chamado vinha do mapa do Estado de São Paulo que a professora usava em sala de aula. Ela pegava o ponteiro de madeira, apontava-o para o Oceano Atlântico, eu me via naquelas águas e meu coração ficava aos pulos.

Uma vez, uma colega contou que já conhecia o mar. Que ela não sabia nadar, mas não afundou, porque conseguiu sentar sobre uma onda e se deixar levar até a praia... Passei uma noite em claro pensando neste salvamento fabuloso, tentando saber como isso fora possível. Nos meus sonhos, eu também me sentava sobre as ondas e me deixava levar, não de volta à praia, mas pelo mar adentro, num ir embora sem fim, no alto mar da vida que me chamava para algum lugar. O mar era feito de dor, de uma lonjura misteriosa, inatingível e bela, pendurado na parede da sala de aula.

Nem tudo é dor; a vida tem suas doçuras. As minhas era passar as férias escolares em São Paulo, na casa da madrinha adorada. O que era São Paulo para uma criança de 9 ou 10 anos de idade, entre os anos 50 e 60? Puro mistério. Sair de Piracicaba e ir para a capital, numa viagem de trem – glória das glórias. Só quem fez uma viagem destas na infância, para visitar a madrinha, pode entender o encantamento. Ó, quando passávamos pelas fazendas e sítios e víamos as mulheres estendendo roupas no varal, ordenhando as vacas e acenando para o trem. O panorama que eu via não era apenas real e concreto, mas um quadro gravado nas retinas, para sempre.

Quem teve a graça de fazer esta travessia pode compreender a emoção viajante da menina. Apenas uma sobrinha que ia visitar uma tia muito querida? Não. Apenas Deus tinha conhecimento da revolução pacífica no fundo da tímida alma junto à janela, durante as 3 horas de viagem. A paisagem era um filme, vista da janela do trem. A vida era um filme lindo.

Estou numa fase encantada. E também porque estou nocauteada de sonho. Um comboio iluminado apita na campina em que brincamos um dia. E houve um dia em que tivemos 18 anos. Deixem-me ficar quietinha aqui, por favor. Quero sonhar. Quero entender o que está acontecendo, e dar uma marcha à ré no tempo, para ver como é que seria, santo Deus!...

Estou numa fase que costuma acometer a maioria das pessoas, numa certa altura da vida, quando se olha para trás e se avalia a caminhada, as lutas, os sofrimentos, as perdas. E os ganhos.

Ainda estou naquele trem. Ainda vou crescer. A viagem é maravilhosa. Quero ficar em silêncio, imóvel, extasiada com tanta beleza. Ela existe. Não preciso comer nada, nem beber, nem me agasalhar. Nem ler os livrinhos que o moço do trem vem oferecer aos passageiros. Não posso tirar os olhos da paisagem. Poderá surgir, de repente, uma cena imortal e não quero perdê-la. Estou naquele trem, mas já é muito tarde. O sonho me alimenta e o Anjo do meu lado segura a minha mão.

Escrever é sonhar.

 
 
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