Inicial | Quem somos | Fale conosco | Reclamações | Denúncias | Links | Úteis |

 



Marisa Bueloni
Pedagoga e Orientadora Educacional
marisabueloni@ig.com.br
Piracicaba - SP
 

Era uma vez o Natal

segunda-feira, 06/12/10 - 10h57

Era uma vez nós dois. Houve uma quentíssima troca de olhares nos corredores da faculdade. Eu subia as escadas e ele vinha atrás, com a turma dele. Nenhum cientista ou biólogo entendeu ainda o que é isso, porque homem e mulher sentem esta mútua atração e depois se casam.

A ciência, um dia, há de explicar que tipo de hormônio e de química ataca as pessoas no cruzamento de olhares e sorrisos, a um ponto em que o coração parece arrebentar de tanta alegria e felicidade.

Casar é muito bom. Demais. Ser feliz no casamento é ganhar na loteria. Eu ganhei. Eu fui milionária por 36 anos. Fui rica de amor, carinho e felicidade. Nós dois éramos um par perfeito para todas as ocasiões. Se eu não fosse, ele também não ia. Santo Deus, então me toca ir!...

Bom, as meias, lenços e cuecas, sempre na primeira gaveta, do lado dele no armário. Tudo muito arrumado e, às vezes, como no poema do Chico, “na confusão do armário embutido/ meu paletó abraça seu vestido...”. Meus sapatos não pisavam os dele, pois guardávamos em lugares diferentes.

Ah, que sonho é casar e ser feliz. Acordar ao lado da pessoa amada e dar bom dia. Ganhar um café na cama no aniversário. Bom mesmo é tomar café na cozinha, um sentado na frente do outro, os olhos se encontrando na luz de mais um dia. A felicidade incidindo no copo de suco. Ele costumava piscar para mim.

Dia 3 de dezembro completam-se 2 anos de sua partida. E por ter me despedido dele em dezembro, era uma vez um Natal que nunca mais vou esquecer. Meu primeiro Natal sem ele, o Natal de 2008.

No dia 3 de dezembro de 2008, lá no necrotério do hospital, ao lado de minhas duas filhas e do meu único neto, puxei o lençol que cobria seu corpo até o pescoço, pois queria ver de perto o tamanho da incisão para a traqueostomia. Não era grande. Um dos olhos, costurado na tarsorrafia – “quando ele tiver alta, a gente tira os pontos, viu?” -, este olho permaneceu colado para sempre. Ele já fechara os dois olhos para nós, numa UTI que visitávamos com o coração abarrotado de dor e esperança.

E foi no dia 3 de dezembro de 2008 que mexi no lençol listrado de verde, para vê-lo e me despedir dele. Seus pés estavam descobertos e eu os toquei, eu passei minhas mãos nas unhas dos pés dele, eu segurei os seus pés, passei as mãos nos cabelos dele e no olho costurado. Adeus, meu lindo. Você não vai ver este Natal...

Cada Natal é a lembrança da sua partida, da sua subida aos ares, da sua descida a terra, do seu olho colado, a incisão na traqueia, o lençol cobrindo um corpo tão lindo. A cada Natal, um vazio, o lugar vago na mesa, um abraço a menos. O presente que não compro mais.

Por que conhecemos alguém com um sorriso estonteante nos corredores da faculdade, um moço atrevido que sopra palavras e beijos sussurrantes, para depois dar a esta pessoa um adeus tristíssimo? Por que a vida é a arte de encontros tão doces, e despedidas tão amargas?

Não sei. E não espero que ninguém me explique. Basta que eu me lembre dele, indo à aula apenas com o maço de cigarros e uma caneta – para assinar a lista de presença, bem entendido. “Mas nenhum caderno?”. “Não precisa, eu guardo tudo aqui” – e apontava a testa. Os olhos castanhos expressivos, o rosto maravilhoso, a pele morena que, com três dias de praia, ficava linda e bronzeada.

E a bondade? Basta que eu guarde na memória a sua imensa bondade. O jeito sincero e simples, falava com todos, com a mesma gentileza e a mesma atenção. Carinhoso, romântico, distraído, esquecia o nome das coisas, das pessoas, dos artistas, comprava Manolo Otero em vez de Santo Morales. “Pra mim é tudo igual, bem”.

Você não era igual. Nada havia de igual a você. Se todos fossem no mundo iguais a você, que maravilha viver. Era o mundo inteiro a cantar, a sorrir, a sentir a beleza de amar. Como na música maravilhosa. Um dia, iremos nos encontrar e cantaremos o esplendor de um Novo Tempo. Confio nas promessas de Deus.

Era uma vez o Natal. E eis que outro se aproxima. Estou vivendo um Advento inesquecível. Sei que o Natal mudou e que eu mudei também. Mudar faz parte da vida, pois o coração é um eterno mutante. Que bom que mudamos muito, para continuarmos sempre os mesmos!...

Tem Natal no céu? Feliz Natal, meu lindo.

 
 
Voltar
 
<<< © 2002-2016 - Acorda, Pará! >>>