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Marisa Bueloni
Pedagoga e Orientadora Educacional
marisabueloni@ig.com.br
Piracicaba - SP
 

Com licença

sexta-feira, 19/03/10 - 14h28

Quando o ano começa, também começo. Diante de algumas tarefas ou impasses, é costume usar uma exclamação meio descabida: “não sei por onde começar...”. Em geral, sabemos sim, já conhecemos o caminho das pedras. A exclamação é só um aditivo para o impulso da iniciativa. Tire a mão do queixo e comece. Eu já comecei. Vamos?

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Janela. Pra que janela? Não tem mais céu azul, nem pôr de sol. Tem uma suja aquarela chamada dia. Janela. Pra que janela? Não tem mais estrelas, nem mais luar. Janela. Pra que janela? Só se for para ver o meu bem passar...

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Ser antiga, arcádica

E tentar um feito:

Declarar-te meu amor

Num decassílabo perfeito

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E a contra-cultura? Acabou junto com a ditadura? Espera aí. Vamos escrever direitinho, agora deve ser sem hífen. Aliás, depois da reforma ortográfica, algumas palavras soam como endereço eletrônico, tipo contraculturatudojuntopontocom. Outra coisa: por que ninguém mais usa a expressão “senta que o leão é manso”? E por que continua em bom uso “o buraco é mais embaixo”?

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O futuro seria um mero blefe? Seria a cenoura balançando na frente do burrinho? Ah, ele nunca vai alcançá-la. E nós,quando é que chegamos, finalmente, no futuro? Quanto mais vivemos, mais futuro há pela frente. Cheguei à conclusão de que o futuro não existe. E se existir, terá, ao menos, uma poltrona boa, um banheiro cheiroso, uma rosa num jardim? Quando ouço a expressão “país do futuro”, tenho um treco. As pessoas se matam de trabalhar, poupando para o futuro. E aí, ele demora que só vendo. De repente, quando se está quase lá, vem o enfarte e puft. O futuro tem um verbo de tempo perfeito, no infinitivo: morrer.

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Quintana: permita-me criar, à minha moda, um poeminho / que lembra a sua justa indignação / com os que atravancavam o seu caminho?

Eles de terno. Eu terninha.

Eles acenam. Eu ceninha.

Eles caminhão. Eu caminha.

Eles granona. Eu graninha.

Eles somam. Eu sozinha.

Eles reluzem. Eu luzinha.

Eles marcham. Eu marchinha.

Eles vivaldos. Eu vivinha.

Eles passarão. Eu passarinha.

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Clarice Lispector dizia que estava habituada a uma vida difícil e que uma vida fácil a deixava desnorteada. Clarice escreveu numa carta: “Não pense que a pessoa tem tanta força assim, a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro”.

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Sabe, se você quer chorar, chore. Se você tem motivos para rir, ria. Dizem que rir é o melhor remédio. Não faça como aquele jovem que, nos anos 70, criticou Hebe Camargo porque ela ria demais na tevê, num momento em que o mundo assistia ao drama da guerra no Vietnã. Hebe perguntou no ar: “Moço, se eu parar de rir a guerra acaba?”.

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Era uma vez o talvez. Talvez não é sim nem não - é um ponto de interrogação.

Talvez - ah, talvez - o que seria de nós sem o talvez?

Ele vai ou não vai? Ela fez ou não fez?

Talvez...

Talvez o mundo fosse outro, se houvesse afirmação, mas o talvez existe - nem alegre, nem triste - para toda situação.

Talvez...

O talvez não define, não determina, mas ensina a ter esperança. Até porque, diz o ditado: quem espera sempre alcança.

Talvez...

E você não sabe de nada, se você vira estrela ou vira sabão. Melhor assim, que seja de uma vez:

melhor talvez, melhor que não.

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A tez das pessoas está um pouco turva hoje. Acho que é a poluição.

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Aquecimento global. Emissões de carbono. Efeito estufa. Estufaram o peito, senhores de Copenhague? Tudo está saindo nos conformes. É só conferir. As cúpulas discutem, enquanto a Terra treme, o fogo arde, o mar avança e os rios transbordam. Quem se dispõe a uma palavra de sabedoria e bom senso? Ah, se o mundo tivesse um síndico, daqueles bem enérgicos e insuportáveis...

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E eu paro, por hoje. Agradeço a licença concedida, a permissão de vagabundear pelas frases, pelos temas, enxerida, pelos arremedos de poesia, assim, meio sem jeito e arredia, como quem não quer nada.
Obrigada.

 
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