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Marisa Bueloni
Pedagoga e Orientadora Educacional
marisabueloni@ig.com.br
Piracicaba - SP
 

Casas & Visitas

sexta-feira, 09/04/10 - 16h40

Tenho um amigo queridíssimo (ele sabe que é ele), com quem troco muitas ideias. Nossos e-mails já renderam alguns temas para crônicas – tanto para ele como para mim -, pois vamos escrevendo numa consciência crítica tão aguda dos assuntos, que o papo redunda em textos quase prontos.

Semanas atrás, escrevíamos sobre o saudoso tempo das visitas, ocasiões em que era servido um bolo, um cafezinho, um doce de compota feito em casa, essas delicadezas de antigamente, entremeadas de risos cúmplices, barulhinho da xícara no pires, janelas abertas e toalhinhas bordadas.

Ah, quanta coisa linda sumiu da nossa vista! Alguém viu por aí uma anágua com rendas? Daquelas bem molinhas, para uma mulher elegante usar sob a saia? Há pouco tempo, fui a uma loja de lingerie e pedi uma anágua. A jovem vendedora fez uma cara de espanto e perguntou: “O que é isso???”. Eu expliquei e ela retrucou: “Mas eu nunca soube que isso existia!...”.

Sim, muita gente desconhece a existência de uma porção de coisas. Ou porque estão mesmo démodé, caíram em completo desuso, ou porque a nova geração não conhece de fato, de nunca ouvir falar, de jamais ter tomado conhecimento, seja por meio de um livro ou de um filme.

Quanto às visitas, estas se perderam no tempo. Estão ter-mi-nan-te-men-te proibidas. Imagine chegar na casa de alguém na hora da novela. É crime inafiançável. Corre-se o risco de ser expulso já no portão, não te deixam nem entrar. Ou subir pelo elevador. Ou passar pela portaria do condomínio. Bem feito, porque é de bom tom avisar quando se vai à casa de alguém. Dar uma ligadinha antes, combinar um horário, pra você não pegar as pessoas de surpresa. Chato, né? Ninguém gosta, fala sério.

Danuza Leão define com elegância e educação: não se visita ninguém sem avisar antes e não se telefona para ninguém antes das 10 horas da manhã. Salvo aviso de falecimento. Acho isso de um bom gosto tremendo.

Conheci uma pessoa que se achava a rainha do mundo. Do mundo não, do universo. Aparecia nas horas mais inesperadas e inoportunas. Era tão inconveniente a sua visita que eu tremia quando espiava pelo olho mágico e a identificava. Mas,abria a porta, claro. Nunca tive mordomo nem secretária particular. Não havia como ir correndo até o quarto, trocar de roupa, passar um batonzinho, colocar um brinco. Não. Tinha de atender ali, na bucha, de cabelo enrolado numa “touca” (para dar uma alisada) e uma roupinha de ficar em casa. Às vezes, eu punha só a carinha na porta entreaberta e pedia gentilmente: “um minuto, que não sei onde está a chave do portão”. Era só uma desculpa.

Aí, ela que esperasse. Ah, faça-me um favor. Tenha santa paciência. Então, eu tirava os grampos da “touca” (não ria, que o “rei” Roberto e toda uma geração se valeram deste recurso, até com meia de nylon, para alisar os cabelos), escovava as melenas e me arrumava para recebê-la. Mas tinha de ser a jato. E ao abrir o portão da rua, engolia em seco ao ouvi-la dizer: “Nossa, mas você não estava assim...”. É, eu não estava, minha flor.

Desculpe. Dei uma volta danada no assunto e vim parar aqui. Mas retomo, vamos lá. Li numa revista que já não se usa mais ter aquela sala separada do resto da casa, aquele espaço todo arrumadinho, decoradíssimo, onde ninguém põe o pé, sabe? Tem casa com sala de visita onde não entra nem o papa... É proibido pisar no tapete persa, os quadros são caríssimos, o sofá é de couro legítimo, mas ninguém senta...

Hoje, a moderna decoração pede que se integrem todos os espaços da casa, todos os ambientes devem ser usados, partilhados. Então, que bom, aboliu-se aquela sala intocável, mera vitrine para os olhos. Mas, de nada adianta abrir os cômodos de uma residência, se há poucas visitas, se falta justamente o aconchego, a presença humana. Perdeu-se o hábito de visitar os amigos e parentes. Além do que, muitas casas viraram prisões, fortalezas de muros, grades e cercas elétricas, fortificações altíssimas, protegidas ao extremo, onde não se sabe se mora gente ali. Sim, há residências que mais parecem cemitérios, túmulos... Uma casa assim espanta a visita.

Ah, que saudade da minha doce casa, no tempo da infância. O portão da rua, o jardinzinho na frente, a trepadeira de florzinhas cor-de-rosa fazendo sombra no terraço adorado, os bancos de ripas de madeira com pés de cavalos de ferro. Esta fachada era um convite irrecusável para que a visita entrasse. E um tapetinho rústico na soleira da porta trazia a inscrição: Bem-vindo.

Gente do céu, como as coisas mudaram. Estamos presos em nossos temores, acuados em nossas desconfianças. Tememos o outro, só de olhar para ele. Numa rua deserta, cruzar com alguém dá arrepios. Sair de carro à noite, parar no farol, tudo tão arriscado e perigoso. Da rua, para casa. Correndo. Nosso doce lar não é mais aquele ali, pintadinho de ocre, no meio do quarteirão, com garagem e jardineiras na mureta. Quem pode está se mudando para os condomínios fechados.

Mas temos de vencer a paranoia do medo, pelo prazer de sair, de visitar, de viver. De abraçar a quem não vemos faz tempo e dizer aquelas palavras de antigamente, quando as pessoas em mútua bem-querença se cumprimentavam. Havia uma beleza natural nesse encontro. As casas possuíam alma, tinham cheiro de pão fresco, de café, de doce de leite borbulhando na panela, de bolo de fubá saindo do forno lá na cozinha. Tinham gosto de beijo, de abraço, de gente. Gosto de amor. À menção de um “vou indo, já é tarde”, o dono da casa dizia: “é cedo, fica mais um pouco”. E na saída, o visitante ainda ganhava de quebra o tradicional “vê se aparece mais vezes, hein?”. E era sincero.

 
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