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Marisa Bueloni
Pedagoga e Orientadora Educacional
marisabueloni@ig.com.br
Piracicaba - SP
 

Bendita crônica

quarta-feira, 17/03/10 - 09h02

Durante dez anos, escrevi editoriais para o principal jornal de minha cidade. Foi uma década bem trepidante, de 92 a 2002. Muitos fatos políticos e econômicos importantes transcorreram neste período, sobretudo a consolidação do Plano Real. E para “descansar” do editorial, vez ou outra, publicava uma crônica. Era uma espécie de refúgio, de terapia. No entanto, usar a primeira pessoa doía como um espinho na carne. Ou soava como heresia.

Às vezes, nós, mortais escribas, padecemos da idéia de que tudo o mais já foi escrito, todos os temas e assuntos possíveis e imagináveis já foram exaustivamente abordados, analisados, debatidos, comunicados. Já se escreveu sobre a fome no mundo, a violência, o aquecimento global e a escassez de água e também da nossa obrigação de usar racionalmente os recursos naturais. Já foram abordadas as grandes questões da humanidade, da política à filosofia, à luz da ciência e da “achologia”.

Já se incursou pelos conceitos da educação, beleza, saúde, arte, cultura, qualidade de vida, direitos humanos e direitos dos animais. Debateu-se a igualdade entre os sexos, lutou-se pela justiça e pela paz. E se combateu ferozmente as queimadas de cana no interior do Estado.

Então, nos cruciais momentos de crise produtiva, a escrevinhadora curiosa e pensante vai bater numa porta que nunca se fecha: a porta da crônica. Neste sagrado frontispício está gravada uma inscrição libertadora, anunciando que a crônica constitui um território livre, acima do bem e do mal. São muitos os que se abrigam neste salutar gênero literário, onde as palavras e seus fonemas se soltam das amarras.

Assim, com permissão poética, pode-se contar que o dia está lindo, ou está chovendo – o que não torna o tempo menos bonito -, as avezinhas saltitam pressurosas, mas uma nuvem sombria no horizonte traz um presságio qualquer. Que pegamos uma gripe, que nosso corpo está são ou doente, nosso espírito ora se encontra combalido, ora combatente.

Bendita crônica que nos permite permanecer naquela zona de atenção, entre o despudor da primeira pessoa e o medo de parecer vulgar. Bendita crônica que ultrapassa a mera inspiração, abrindo-nos um baú precioso de imagens e lembranças. Bendita crônica que nos ensina o valor da palavra e nos ajuda a escrevê-la com dignidade, buscando as entranhas dos significados, semântica de ciência exata, sintaxe dos sonhos. Para cada tentativa de exprimir-se, um vocábulo apropriado. Não se usa “preso” quando se que dizer “detido”.

Mas a crônica não aprisiona ninguém, nem ao escritor preocupado em não ser repetitivo, ou temendo escrever o que outros já escreveram, com superiores dons estilísticos. A cronista humilde reconhece sua pequenez no universo das letras e admite que anda cansada das causas. Já lutou muito com as palavras e julga ter conquistado o direito ao repouso. E o repouso, para ela, é a almofada fofa da primeira pessoa. Com licença? Por favor? Oh, muito obrigada!

Nunca se sabe em que pedaço da história perdemos nossa identidade. Se será preciso voltar à caverna imemorial dos nossos antepassados, para onde o macho arrastou a fêmea, ameaçando-a com o fêmur de um ancestral do javali. Não sei se na era do gelo perdi minha ilusão. Se vislumbrei um pterodáctilo no jurássico céu, se avistei o novo mapa-mundi previsto para o ano de 2012, com a Terra invadida pelas águas, ou se já sofri o tormento da seca e da sede, na profecia do árido futuro. Em alguma era perdida, lá ficou meu coração.

Bendito texto despudorado, onde despimos nossa tímida veste verbal. Que ele vá, manso e novo, novo ou velho, ao encontro do leitor que se senta num café, abre o jornal e o procura. Liga o computador e o encontra. Que o coração do leitor se inflame com a busca de sua própria verdade. Talvez o leitor nunca a tenha perdido. Sorte dele.

Sorte a minha de poder vagar pela crônica a esta altura da vida, diurna ou noctívaga, fixa ou ambulante, sem querer provar nada, sem estilo e sem argumento, polindo as ferramentas da fantasia. Nunca sei onde meu texto vai dar... Sorte a minha, pela autoridade de escolher os temas, as palavras, as frases – sem qualquer vigilância.

Livre de regras, nadando de braçadas, no despudor da linguagem nervosa e ensanguentada, abusando das licenças poéticas, estas linhas canhestras vão tropeçando nas vírgulas, ofegantes e cansadas, mas chegam inteiras até o fim.

 
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