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Marisa Bueloni
Pedagoga e Orientadora Educacional
marisabueloni@ig.com.br
Piracicaba - SP
 

A cultura do desejo

quinta-feira, 22/04/10 - 08h17

Encontrei dia destes, entre meus guardados, um texto muito bom, datado de julho de 2003, uma entrevista feita com a guru americana do marketing, Melinda Davis. Melinda trabalhou em projetos multidisciplinares para descobrir os desejos do consumidor. Esta “cultura do desejo” aparenta continuar a mesma neste ano da graça de 2011, alimentada fervorosamente pelo avanço da tecnologia em todos os setores da nossa sociedade.

Pode ser que o leitor já tenha lido ou ouvido falar em “prana”. Segundo o hinduísmo, prana é a energia vital do universo e, já em 2003, Melinda diagnosticava que o mundo precisa ”trocar o Prada pelo prana”. A afirmação parte do pressuposto de que as pessoas já estariam com suas necessidades físicas e materiais perfeitamente satisfeitas e que as novas necessidades estariam ligadas aos aspectos emocionais.

É óbvio que esta tese conversa com uma classe de pessoas com potencial para consumir, comprar, e experimentar as últimas novidades do mercado, seja comida, eletrodomésticos, ou roupinha para cachorros.

Contudo, Melinda acredita que qualquer um que tenha uma tevê e um telefone celular, já pode se considerar inserido no grupo de pessoas que buscam uma vida mais equilibrada e mais rica emocionalmente. E se uma pessoa não tem dinheiro para ir a um spa, ela compra sais de banho e dá na mesma.

Nos meandros da cultura de consumo, é importante a influência da internet, e a guru aponta para o fato de as pessoas viverem menos o mundo físico para passar horas consideráveis no mundo da tela. Seja da tevê, do computador ou do celular. Assim, nossa realidade se torna muito mais mental. Trata-se, sem dúvida, do mergulho no universo do imaginário, que nos leva a uma inquietação a respeito do que é ilusão e do que é realidade.

No embate frontal entre a virtualidade e o que é real, surge a perplexidade inerente a um processo que, se é assombroso de um lado, do outro pode provocar perguntas nem sempre fáceis de responder. Esta mistura do virtual e do real acaba pesando nas decisões pessoais, podendo mesmo gerar algum tipo de dificuldade intelectual ou emocional.

Melinda cita o estresse. As pessoas já não saberiam de onde ele vem, uma vez que se vive num mundo “cada vez mais etéreo”. A longa jornada de trabalho e as solicitações constantes do dia-a-dia – que são as mesmas desde 2003 e hoje cada vez mais intensas... –, unidas à “desnutrição emocional” provocada pelo excesso de tecnologia ditariam os desejos do consumidor. Será que de 2003 para cá este estresse angustiante diminuiu? Talvez ele só tenha aumentado, em gênero, número e grau – como se dizia até pouco tempo.

No seu depoimento de sete anos atrás, a guru concluía que, neste emaranhado de apelos aos nossos sentidos, já não estaríamos sendo atraídos para os produtos “novos”. Por quê? Porque o novo gera ainda mais estresse. E é verdade, se olharmos para os novos recursos tecnológicos a nossa disposição, a cada mês. Só mesmo os muito aficionados apreciam de imediato. A maioria olha com certa desconfiança, para depois se acostumar e operar com maestria. Contudo, o consumidor não percebe que passou por um processo de adaptação ao que exigiu dele uma pequena performance mental.

A cada novo modelo de celular, vemos a ansiedade das pessoas. Ninguém sossega enquanto não dominar perfeitamente a maquininha infernal. O aparelhinho antigo nos proporcionava alguma segurança. Ah, com esse eu vou até o fim do mundo, ele é o meu porto seguro. Estar num lugar qualquer e, de repente, notar que se esqueceu o celular em casa é pânico puro. Uma pessoa me disse: “Sem meu celular, me sinto nua”. Uns se sentem nus, outros se sentem perdidos como numa densa floresta tropical.

Enfim, a teoria de que o novo sempre assusta e causa resistências nos conduz ao interesse por produtos que prometem conforto para o espírito. De maquininhas infernais e digitais o mundo já estaria cheio. As novas propostas e ofertas teriam de se ajustar aos aspectos mais básicos e humanos da vida, exigindo-se um marketing cada vez mais emocional, “que alimente a alma dos consumidores”.

Melinda afirmava que “nossa maior ocupação é manter a sanidade mental”. Sem dúvida, nossa capacidade de interpretar racionalmente o mundo está intensamente afetada pelas incessantes novidades do mercado de consumo. Daí a necessidade de um marketing inteligente e sensível, voltado para algo que ofereça sossego à alma.

Será que, sete anos depois, algo mudou? Ou essa necessidade de se oferecer produtos que “acalmem a mente e o espírito” está ainda absolutamente em alta, devido ao estresse causado pelo excessivo número de tecnologias que satisfazem os sentidos, o corpo, mas esquecem o incorpóreo universo das nossas demais necessidades?

Assim, a proposta parece continuar atual e oportuna: oferecer algo mais substancial ao consumidor, para que ele se sinta protegido, abrigado e amparado. Contudo, que essa oferta de paz de espírito não venha estressar ainda mais o curioso indivíduo à deriva. Sua sede não se aplaca jamais e ele vaga solitário entre as vitrines dos shoppings em busca de um alento para sua vida, cuja ciranda não cessa de lhe impor novos desejos.

 
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